“Dia D”, para inglês ver

Semana passada o Brasil teve seu “Dia D”, Dia Nacional de Mobilização, que enfatizou o combate ao mosquito Aedes Aegypti, contando com estados, municípios, forças armadas e milhares de panfletos. Publicitariamente, talvez tenha sido um sucesso, mas a eficácia é questionável e pouco provável. A Folha de São Paulo, de 16 de fevereiro, traz a notícia de que o Governo Federal e muitos Estados brasileiros diminuíram o repasse às vigilâncias epidemiológicas, e até justifica a queda de 9,2% no repasse federal como sendo causada pela queda na arrecadação. A Folha não publicou os dados do RN, porque o Estado não divulgou dados de 2014 e 2015.

Em Natal, a impressão que se tem, com todo esforço das forças armadas, é que muitos ainda não sabem muito bem em que guerra entraram. Creio que a ideia de incluir os militares foi para aumentar a força de trabalho em campo, não somente na área educativa, no ir de casa em casa conversando, mas ampliar a área da atuação dos agentes de endemias, cobrindo mais áreas em menos tempo. Em 90% dos casos só acontece a entrega de panfletos e explicações do que estã escrito.

Pois bem. O “Dia D” em Natal, foi para inglês ver, com muita gente colando no Ministro de Desenvolvimento Econômico, Armando Monteiro, que na ocasião representou a presidente Dilma Roussef, e muita mídia. Nada mais. Foi fácil de observar que neste momento, em que existem dois protagonistas, no caso o cidadão e o mosquito. Não cabia, e não cabe, transformar algo que fale tão diretamente à vida das pessoas como uma espécie de autoelogio, tentando fazer crer que um ente público organizou sozinho dados, ações, treinamentos.

A atuação das Forças Armadas, por melhor que queiram fazer, não foi definida para otimizar a vigilância e ser uma força extra, mas quase que totalmente para entregar panfleto, que por sinal não é aconselhável, por correr o risco de ser jogado na rua. Muitos soldados nem sabiam direito que Zika e Chikungunya são transmitidos pelo mesmo mosquito. Mas sabiam que deveriam divulgar o aplicativo para os smartphones, que no final das contas são denúncias repassadas aos municípios, ou seja, são os municípios que, de fato, agem.

Já o Governo do Estado, se disse coordenador de toda a ação. Pena que excluindo, boa parte do tempo, o ente mais próximo e conhecedor da realidade local: A Prefeitura de Natal, através da Secretaria Municipal de Saúde. A prefeitura participou das reuniões nos últimos dias antes do “Dia D”, o que dá a impressão que foi convidada apenas para constar. Os locais escolhidos para a ação do dia 13 de fevereiro foram determinados pelos dados levantados, via monitoramento do VigiaDengue, sistema usado pela prefeitura de Natal e destacado pelo Ministério da Saúde como referência nacional. Por sinal, o chefe do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), Alessandre Medeiros, participa desde ontem (17), em Brasília, de um encontro internacional de combate ao vetor.

De parte da Prefeitura de Natal, há o trabalho constante dos agentes de saúde e endemias nos bairros, estes últimos tiveram acréscimo de 2015 para esses dias de cerca de 164 concursados. A prefeitura mantém um gabinete de crise há dois meses, e recentemente reforçado pelo prefeito Carlos Eduardo, integrando as secretarias do município nessa guerra que é de toda sociedade, visando conscientizar a população que ela precisa trabalhar em conjunto com o poder público, limpando o próprio quintal, não jogando lixo nas ruas, terrenos e canteiros da cidade.

Ao final, fica a observação da capitalização política, ou na intenção de constranger, na reta final desse “Dia D”: Em foto publicada pela primeira-dama do Estado, foi mostrada uma construção inacabada, na comunidade de José Sarney, nominada como “lagoa de captação”, cheia de água e lixo, atribuída ao município de Natal. A realidade é que nem é lagoa de captação, e nem é da prefeitura de Natal. É uma estação elevatória da CAERN, órgão que é da responsabilidade do Governo do Estado. Precisamos ter consciência e responsabilidade, sem acusações que não levam a nada, e tão pouco podemos esquecer quem deve ser valorizado: o cidadão. Nesta sexta (19), é dia de mais um “Dia D”, dessa vez na Educação. Que haja mais ponderação e união, para o bem de todos.