O show de Truman

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A célebre frase de Glauber Rocha, “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, foi parafraseada pelo deputado estadual, candidato à prefeitura de Natal, Kélps Lima, que esqueceu de dar os créditos. Uma falha até boba, mas questionada por muitos, talvez por ter sido um esquecimento, ou não, que atingiu o politicamente correto, que é a linha que o candidato segue nas suas postagens e posicionamentos. Já demonstrou que começou mal a campanha, embora a ideia tenha sido boa.

Kélps Lima não decolou na velocidade em que parecia que iria. Vai ver foi Glauber Rocha se revirando no túmulo e praguejando contra o candidato. A campanha foi definhando, virando motivo de piada e criação de várias brincadeiras. Com a frase “com um celular na mão, e um desejo no coração”, já foi chamado de candidato Pokémon, e hoje é o doidinho do celular, em que muitas vezes as pessoas nem lembram da segunda parte da frase, porque se divertem mais fazendo alguma complementação engraçada com a primeira parte. A estratégia que parecia atrair os jovens, os mais conectados, parece que naufragou justamente no “oba oba” das redes sociais. Ninguém conseguiu acreditar na campanha com um celular sem um defeito de áudio, sem uma imagem tremida, ainda que com o celular passando de mão em mão e com a maior despesa declarada justamente na área de propaganda/comunicação. Criou-se uma expectativa de uma campanha que seria feita quase bruta como são os vídeos amadores, e sem adesivos de nenhum tipo, como anunciado, mas como explicar tantos adesivos de carro, bottons? Doação? Amigos insistiram em fazer? Já que não haveria nada de divulgação tradicional, o candidato não deveria sequer ter aceito qualquer doação ou atitude no sentido. Inclusive, poderia ser o direcionamento do partido como um todo, o que pelo visto não foi. Soou demagógico, para usar um termo do internetês, ficou parecendo um discurso fake.

O ex-secretário municipal de trânsito e transporte de Natal, na gestão de Micarla desde o seu início e saindo em abril de 2010 para se candidatar ao cargo de deputado estadual, Kélps se orgulha de ter ganho prêmio nacional com o projeto Via Livre, que implantou em algumas ruas do Plano Palumbo (Tirol), apesar da promessa ter sido para os principais corredores viários da cidade. O que não foi cumprido. O seu bairro de nascimento, o Alecrim, por exemplo, sendo sempre lembrado pelo hoje candidato do partido Solidariedade como um bairro importante (e o é!),não foi agraciado com a iniciativa. Por sinal, ao reler os releases da época do lançamento do Via Livre, fica a sensação que o projeto foi feito para dar visibilidade ao futuro candidato, então do PR, à Assembléia Legislativa. Curioso é que enquanto secretário de mobilidade, Kélps não deixou encaminhamento para resolver a licitação do transporte público que tanto cobra do atual prefeito, Carlos Eduardo. Kélps teve a oportunidade de fazer, ou iniciar, e não o fez. 

Há uns três anos o candidato Kélps apareceu com um projeto de mobilidade para Natal, em conjunto com o então vereador Rafael Motta (hoje do PSB, que apoia Kélps e tem um aparentado concorrendo à Câmara Municipal) e o vereador Paulinho Freire (hoje do Solidariedade, candidato à reeleição) cobrando que fossem ouvidos sobre o tema. Curioso não terem feito nos quatro anos com Micarla no poder. Um sendo ex-secretário, Kélps, e outro ex-vice-prefeito, Paulinho. Esse projeto lembra as diretrizes do projeto implantado pelo então secretário de mobilidade na época de Micarla, e já que as frases andam impactando as redes sociais, podem dizer que: é o mesmo projeto debaixo do braço, querendo ganhar a população pelo cansaço.

Fato é que a campanha pregando modernidades, desburocratização usando a via virtual parece que não surtiu o efeito desejado, ficou apenas no mais do mesmo e bem caricato. À grosso modo, a população não conseguiu entender/conceber um prefeito que faça reuniões via Skype, que despache via Whatsapp, que comunique-se com o povo via Live do Facebook e tome decisões via pesquisas no Twitter. Não dá para ter um celular na mão, um desejo no coração, sem fazer a reflexão de como explicar ao povão como gastar o seu dinheiro em quatro anos de virtualização.