Avestruz

Assunto mais comentado no Rio Grande do Norte desde sábado, e ainda sendo comentado em redes de comunicação nacionais e internacionais, a rebelião em Alcaçuz traz não só mais um caso da falência do sistema carcerário e penal do Brasil, traz à luz a forma como cada Estado, cada governador lida com o assunto.

No Rio Grande do Norte da arrogância, dos discursos feitos apenas para as mídias, da responsabilização do outro e nunca a admissão de um problema que precisa ser resolvido, as contas não batem. O Governo do RN além de ter dito em alto e bom som que rebeliões não aconteceriam aqui, também nunca sabe direito das coisas, a começar com o número de fugas nesta rebelião, depois com o número de mortos, oficializados em 26, embora presidiários e informações vindas dos agentes penitenciários dizem que são, no mínimo, 50 mortos. Depois veio a declaração de que estaria tudo sob controle, e ninguém sabe que controle é esse em que hoje é o quinto dia de rebelião, sem nenhuma ideia do que ocorrerá amanhã.

O governador e seus auxiliares desmentem até que exista preso armado em Alcaçuz, embora os jornalistas e familiares tenham ouvido tiros dentro do presídio. Que transparência é essa? Que governador da segurança é esse, que deixa com que os presos se matem, primeiro dizendo que é temendo que aconteça um novo Carandiru (novo Carandiru pela PM/RN não pode, mas novo Carandiru pela Força Nacional, pode?), e depois dizendo que essa não é uma briga do RN. Ora, se a rebelião é aqui, a briga é sim do RN porque é a sociedade do RN quem poderá pagar pelo desenrolar dos acontecimentos. A polícia militar sabe o que precisa ser feito para se tomar o controle, de verdade, do presídio, mas precisa do respaldo de um governador que não quer se comprometer e que deixa claro que caso algo ultrapasse o planejado, responsabilizará os homens da polícia militar. Por isso o pedido ao Governo Federal de equipe de emergência da Força Nacional, para que os militares dessa equipe entrem no presídio.

Os jornalistas ligados ao governo agora responsabilizam a construção do presídio, o governador da época, Garibaldi Filho, e o secretário de justiça da época, Carlos Eduardo. Com um alto grau de memória seletiva, esses jornalistas esquecem de onde estava o então deputado estadual Robinson Faria, que não se pronunciou contra a construção de Alcaçuz, que não fiscalizou o Executivo na construção do presídio, e fazendo os cálculos pode-se notar que nesse período Robinson Faria já era um estudioso do tema segurança pública, tanto que hoje se autointitula o governador da segurança.

Óbvio que nenhum governante deseja uma situação como a de Alcaçuz, mas é preciso ter humildade para ouvir/ler críticas, e assumir a responsabilidade também pelos erros cometidos, pelas limitações, sem transferir para terceiros, quartos, quintos. É preciso ter determinação e peito de tomar decisões que demonstrem que o Estado ainda comanda alguma coisa. Só o discurso, só os papagaios da mídia, só frases vazias, só meia transparência não basta. O povo do RN se apavora cada dia mais, e acredita cada dia menos na capacidade de reação do Estado. Uma pena.