Roqueson Santeiro

A impressão que se tem é que desde 1535, quando passamos a ser a Capitania do Rio Grande, doada a João de Barros (historiador português e pioneiro da gramática portuguesa, tendo escrito a segunda obra a normatizar a língua) por D. João III, que somos aquele lugar que tinha tudo para dar certo, e algo acontece para não dar. Pois bem, a frota de João de Barros chegou… à deriva, nas Antilhas Espanholas. Ou seja, João de Barros era o dono, mas chegar aqui que era bom, nada. Desistiu depois do trauma e de arcar com as despesas dos homens mortos no naufrágio.

De lá para cá, vivemos meio que do improviso, do resolver depois, do pouco cuidamos da nossa memória, da nossa História. Final de semana passado, domingo, 15 de outubro, o Brasil teve 30 santos canonizados pela igreja católica, todos em terras potiguares, especificamente mortos em Canguaretama e São Gonçalo do Amarante. Se for perguntando aos potiguares, poucos saberão de onde vieram esses 30 santos, e muito menos lembrarão que em 1645, na verdade, não havia apenas uma disputa entre cristãos calvinistas e católicos, uma disputa religiosa era o de menos, o que havia mesmo era uma disputa por poder e riquezas (terras, gado e o que fosse possível possuir naquela época).

Pois bem, os 30 novos santos levaram ao Vaticano uma enorme lista de “pais” e “mães” de uma insistente luta de mais de 40 anos para esta canonização, onde a maioria pegou essa “onda” nos últimos anos. Há 11 anos, a então governadora Wilma de Faria, através da Lei 8.913/2006 declarou 03 de outubro como feriado estadual em homenagem aos mártires. Neste domingo, o Vaticano contou com a presença de deputados federais, de senadora, de prefeitos (de Natal, de Canguaretama e de São Gonçalo do Amarante) e ex-prefeitos, além do governador do RN, assessores, e uma lista que ninguém sabe muito bem quem fez parte e para exercer exatamente qual função, e o mais importante, quem vai pagar a conta toda e quanto custará tudo isso para o erário público. De quebra o Governador e sua comitiva pessoal resolveu dar uma passadinha em Lisboa, e diz a lenda, pedir o apoio da TAP – empresa aérea – para ajudar no roteiro religioso do RN, que por sinal nem pronto está. Ora, como se a TAP, muito generosa, e sozinha, trouxesse esses turistas para o nosso Estado sequer sem roteiro pronto. Talvez a parte mais importante de Lisboa tenha sido comemorar o aniversário da primeira-dama do RN/Secretária, em Lisboa, com as bençãos de N. Sra de Fátima, que afinal de contas chegou antes dos 30 santos das terras potiguares. Abaixo, alguns dos valores de diárias.

Dois momentos são importantes durante o dia da canonização: Um governador que faz vídeos, e escreve texto nas redes sociais, dizendo doar os santos ao mundo, como se fosse uma grande obra de governo, deslumbrado e vivendo no mundo de Bobby, mas sem a criatividade do desenho animado e longe da humildade que prega o Papa Francisco; e a demonstração da incapacidade de pensar maior, melhor e com praticidade.

Só agora, depois de virarem santos, o governo começa a se organizar para atrair o turismo religioso? Ora, se em 2010 Wilma de Faria inaugurava a maior estátua católica do mundo – iniciada em 2007 – em Santa Cruz, e o então deputado estadual Robinson Faria era presidente da Assembleia Legislativa e parceiro da gestão Wilma, jamais passou pela cabeça dele apostar no crescimento do turismo religioso? Se não passou pela cabeça, deveria ter extinto o cargo de coordenação de turismo religioso, pelo menos. O que se lê são as declarações do governador Robinson e do secretário estadual de gestão e projetos, Wagner Araújo, à Tribuna do Norte – que perdeu uma grande oportunidade de republicar a história dos mártires na edição de domingo – desta terça, 17, é um “queremos fazer um roteiro religioso” ou um “vamos começar a montar os roteiros turísticos”. Vergonhoso. É como se tivessem sido pegos de surpresa, e ambos estiveram ligadíssimos no governo que pensou em algo do tipo nem faz muito tempo. Infelizmente lá vamos nós, do Rio Grande (do Norte), improvisar, correr atrás, quando já deveria ter tudo pronto, porque tempo para fazer não faltou. Realmente os 30 santos, se não doados ao mundo sendo de barro ou gesso, terão muito trabalho para tentar ajudar um governo inerte e que só cresce em rejeição. Só 30 santos para tentar proteger a população do RN da insegurança que assola no Estado. Só 30 santos para convencer Robinson Faria a cumprir a promessa de colocar e sentar em um birô no Walfredo Gurgel, e mais cumprir a promessa de construir um hospital de trauma, e pelo visto, se tudo isso acontecer será o maior milagre já visto no Rio Grande do Norte.

Em tempo, em Natal existe um roteiro turístico religioso já iniciado em que inclui a Paróquia Santuário dos Mártires, no bairro de Nossa Senhora de Nazaré, e via de regra os peregrinos começam seus roteiros pela capital do Estado, por isso a presença do prefeito de Natal, Carlos Eduardo. No Vaticano estiveram também a prefeita de Canguaretama, Fátima Marinho, onde ocorreu o massacre de Cunhau e existe a capela de Nossa Senhora das Candeias, onde era o antigo engenho de Cunhau, e o prefeito Paulo Emídio, de São Gonçalo do Amarante, onde ocorreu o massacre de Uruaçu e onde se tem a Capela dos Mártires de Cunhau e Uruaçu.