Pacotão do Robão

Foram vinte dias pensando se deveria escrever ou não sobre o óbvio, mas tendo em vista o vídeo do “Pacotão RN Urgente do Robão” em que durante 11 longos e sofridos minutos o governador primeiro fala como se estivesse fazendo programa eleitoral, e depois acha que é muito natural, depois de decretar vários estados de calamidade e com três anos passados de seu mandato, anunciar como uma grande obra o “maior pacote fiscal da história do Rio Grande do Norte”. Frase bem típica dessa megalomania que sofre o governador. 

No vídeo, Robinson conta o nome do “pacotão”: RN Urgente. Zero em originalidade. Já existe até programa de televisão com esse nome, e além disso, indica que tudo que o governo quer é aprovar as medidas ao toque de caixa (expressão que se refere ao antigo costume militar de utilizar o toque da caixa para orientar seus comandados), sem discussão com a sociedade, com os servidores. O governador tenta explicar porque só fazer agora, podendo ter feito uma reforma total no início da administração, mas analisando o vídeo, consegue-se ver que uma criança de três anos explica melhor. Quis dizer que enquanto candidato ele não sabia que o RN estava quebrado, segundo ele, mas admite que poderia ter feito o dever de casa logo no início do seu mandato. Diz que em 2015 ninguém previa uma imensa crise econômica e política, mas não precisava ser adivinho para perceber que o Estado precisava de redimensionamento, bastava ser um gestor de qualidade razoável.

Resumindo o vídeo: É uma piada de mau gosto, uma tentativa tosca de manipulação para amenizar sua rejeição e mascarar sua incompetência. Chega a falar da previdência estadual. Ora, ele raspou o tacho do FUNFIR e quer ter autoridade para falar sobre previdência? Quer aumentar alíquota da previdência, logo ele que pôs a mão em tudo sem sequer dizer como iria devolver para os aposentados. Robinson fala, fala, mas não diz claramente o que quer fazer, não detalha, tanta explicar mas complica.

Robinson, que fala de problemas estruturais que não foram criados agora, esquece que esteve ao lado de todos os outros governadores desde que foi eleito pela primeira vez. E esteve mais próximo ainda durante os oito anos do governo Wilma, quando ele era presidente da Assembléia Legislativa e fiel escudeiro da governo, aprovando tudo que chegasse à AL/RN (coincidência ou não, o braço direito de Wilma quando governadora, hoje também é o homem de confiança de Robinson Faria, Wagner Araújo). Foi eleito vice-governador logo em seguida contra o candidato da própria Wilma, para depois romper com Rosalba, sem renunciar ao cargo, e dizer que faltava gestão e não dinheiro no RN. Hoje, aquele que se autointitulou “O melhor governador da história do Rio Grande do Norte”, amarga as palavras que saíram nos programas eleitorais e não voltam mais. Amarga um enorme desgaste com os servidores, amarga a desconfiança do seu estudo de 20 anos sobre segurança por causa do péssimo número histórico de crimes no estado (apesar da viagem para a Colômbia, que claramente não serviu de nada), amarga apelar para a Força Nacional e as Forças Armadas há tempos. A crise na segurança é tão grande que as pessoas esquecem até da saúde capenga do estado, das promessas não cumpridas, do desrespeito com a dignidade humana nos hospitais estaduais. A educação só não está pior porque a secretária Cláudia Santa Rosa tem um nome respeitado, e cuida da parte pedagógica da secretaria, mas há servidor que reclame muito da área mais administrativa, de coisas que eles mesmos, os servidores, dizem que ela não sabe. E a seca de sete anos? Quais iniciativas foram tomadas saindo da média, do padrão, desde que ele foi eleito? Robinson dizia que Robinson teria solução para tudo, e eis o pecado mortal de quem acha que é autossuficiente… Vira refém de suas ações e palavras.

Agora, verdade seja dita, se o RN está no caos que se encontra hoje não é só culpa do governador inábil. É culpa também de uma Assembléia Legislativa omissa, com um ou outro soltando frases de efeito, mas na hora de tomar uma decisão mais forte, somem, mergulham em mar, ou vazio, profundo. No meio de uma paralisação da polícia, nenhuma sessão extraordinária sequer para fingirem que se importam com o povo desse estado. A OAB/RN só se pronunciou nos últimos dias, depois de muita pressão nas redes sociais. Os Direitos Humanos sequer lembram dos direitos dos servidores passando fome. Não só a polícia tem seus salários atrasados, mas todos os servidores. A bancada federal não se pronunciou, continuou no seu pedestal e suas viagens pelo interior, encarando seca, servidores em desespero, como se tudo fosse normal. Não houve uma palavra sequer de solidariedade ao policial que suicidou-se por desespero. De ninguém. Pode-se imaginar quantos mais, das diversas pastas, não pensaram ou tentaram o mesmo. Saia da sua redoma, governador, ouça mais o povo e menos seus conselheiros pernósticos. O pesadelo do RN precisa de otimismo sim, mas precisa de pulso firme e ações estudadas, detalhadas e discutidas. Aqui ficam duas perguntas, durante o caos, completo e absoluto, que vivemos nos últimos anos: Quem se importa e ouve, verdadeiramente, o povo potiguar? E, até quando os potiguares suportarão serem tratados como ignorantes cegos?